Antonio Carlos Pannunzio
Como parte das comemorações do aniversário de Sorocaba, a Prefeitura implanta dia 14, na sede da Secretaria Municipal de Cultura, no Palacete Scarpa, a Fonoteca “Professor Abel Cardoso Júnior”.
Constituída a partir do Acervo de Registro Sonoro da Biblioteca Infantil, ela disponibilizará o acesso de pesquisadores e interessados em geral a uma coleção de 23 mil documentos sonoros, visuais e impressos.
No primeiro grupo se incluem discos - desde os 78 rotações, gravados mecanicamente no início do século XX, às gravações em CD - passando por fitas de áudio e vídeo e pelos DVDs.
Os documentos impressos incluem partituras, livros, programas de concerto, manuscritos, revistas e recortes. Também dela fazem instrumentos musicais e aparelhos usados na reprodução documentos em áudio e vídeo.
Todo esse material, que a Biblioteca Infantil acomodou, durante anos, num esforço heroico de maximização do seu espaço e prestação de serviços aos sorocabanos, poderá, a contar de quinta-feira, ser pesquisado ou simplesmente fluido pelos interessados, em cômodas dependências do Palacete Scarpa.
Ao se decidir pela institucionalização do novo serviço, fixando-o na sede da Secult, o Executivo sinaliza a intenção de transformar as bibliotecas oficiais do Município em centros de pesquisa e documentação cultural multimídia, registrada e diferentes suportes, como a realidade tecnológica atual exige.
Em paralelo, presta homenagem a um sorocabano de coração que, unicamente pelos seus esforços, ascendeu ao primeiro time dos estudiosos brasileiros de história da música popular.
Professor normalista, nascido em Guarantã, Abel Cardoso Júnior dividiu sua vida entre o ensino e a pesquisa musicológica e em ambos alcançou níveis de excelência.
Na escola estadual que dirigiu durante décadas, no Cajuru, as aulas sempre começaram efetivamente no primeiro dia do calendário oficial. Os docentes e discentes sabiam que ao chegar a ela, sempre a encontrariam pronta e organizada, devendo os mestres comparecerem preparados para ministrar suas primeiras aulas e os alunos para acompanharem-nas fazendo as necessárias anotações.
Abel foi coeditor, durante anos, do Jornal do Professor, do Centro do Professorado Paulista, para o qual produziu textos e ilustrações. No jornal e nas mobilizações públicas da categoria, destacou-se como um intimorato lutador pelos direitos do professorado e uma remuneração digna, condição indispensável para a qualidade do ensino público.
Como escritor, sem qualquer ajuda oficial, desenvolveu longas e aprofundadas pesquisas sobre a música brasileira, seus intérpretes, instrumentistas e compositores no período que vai das últimas décadas do século XIX ao final da década de 1940.
Seu esforço metódico e continuado resultou num tesouro de livros, revistas, fotos e recortes e principalmente gravações e anotações de entrevistas que realizou com dezenas de figuras de destaque de nossa música. Para completar os dados das fontes impressas, viajava, sempre às próprias custas, para ouvir esses personagens destacados da cultura brasileira onde quer que residissem.
Reuniu, desse modo, uma documentação impar que, aliada ao seu saber pessoal, fez de sua casa, na Rua Fernando Costa, em Vila Carvalho, durante os vinte ou trinta anos anteriores ao seu falecimento, um centro de peregrinação dos pesquisadores vindos de todos os quadrantes do Brasil, interessados em resolver, com a ajuda dele e de seu incrível banco de dados, as dúvidas que os atormentavam. Infelizmente, sua morte marcou também a dispersão daquela coleção única e inexcedível.
A criação da Fonoteca Abel Cardoso Júnior, nas dependências da Secult, traduz a convicção do governo municipal que sua atuação, na área da cultura, deve ter necessariamente um caráter estruturante, gerador de organismos perenes, capazes de garantir que, entre nós, a criação e a inovação possam, sempre que necessário, enraizar-se sobre o terreno fértil da memória cultural.
Artigo Publicado no dia 10/08/2014 no Jornal Diário de Sorocaba