Antonio Carlos Pannunzio
Prefeito de Sorocaba
Joaquim José de Lacerda foi um personagem de notável importância na Revolução Liberal de 1842, episódio que fez de Sorocaba, durante cerca de um mês, a capital rebelde da então Província de São Paulo. Acabou, entretanto, dando nome a uma rua quase escondida, cheia de altos e baixos, na transição entre o alto da Vila Santana e os bairros que surgiram, ao longo do século XX, ao redor da Vila Fiori.
A mudança de funções daquela via pública, como parte da implantação dos complexos viários que constituem o projeto Sorocaba Total, transformou a rua modesta numa majestosa avenida, e acabou fazendo justiça ao papel de seu patrono na História Política da cidade.
Agora, o processo se completa com a abertura da licitação para construir ali um novo viaduto, com direito a um belo projeto paisagístico, que substituirá com vantagem a arborização ali existente antes das obras, iluminação adequada e moderna sinalização de trânsito. Mais importante que isso tudo, entretanto, é o impacto que aquela obra terá na reconfiguração urbanística da cidade e na racionalização e ordenação de suas correntes de tráfego.
Constituído em boa parte por ruas criadas à época do início de seu povoamento, algumas delas sobre as trilhas abertas pelos indígenas como parte do Peabiru, o centro de Sorocaba cresceu em direção ao Norte, no século XX através das ruas Hermelino Matarazzo e Comendador Oeterer, que findavam nas proximidades da área conhecida como Caixa d’Água, em que ainda hoje se situa um reservatório do Saae.
O avanço prosseguiu por vias como Avenida Ipanema, a Atanásio Soares e a Itavuvu e, com isso, a área adjacente ao início da JJ Lacerda e à Caixa d’Agua converteu-se num espantoso entroncamento viário, com quase uma dezena de mãos de direção diversas, precariamente organizadas por um conjunto de semáforos.
Nas horas de pico, transitar por ali, como motorista de carro ou passageiro de ônibus, é um exercício demorado e estressante, que mexe os níveis de adrenalina das pessoas.
No plano local, o viaduto, ora em concorrência, vai dar fluidez e ordem às correntes de tráfego, permitindo que aquele que procede da JJ Lacerda e se destina à Avenida Brasil ou que, vindo da Atanásio Soares, quer acessar a Comendador Oeterer, execute a manobra com mais facilidade e quase nenhum risco.
Mas o viaduto da JJ Lacerda não é uma obra isolada. Ele se soma àquele, em fase de conclusão na Rua Humberto de Campos, na tarefa de interligar facilmente uma fatia do Centro e uma considerável porção da Zona Norte com os bairros do Cerrado, dos quais estão separados há mais de um século pelos trilhos da antiga Sorocabana, sem obrigar o transeunte a transitar pelas ruas do Centro.
É impossível comprimir, num pequeno texto jornalístico, as implicações que advirão para Sorocaba e seus habitantes da superação dessas duas barreiras históricas: o leito do Rio Sorocaba e a linha da Sorocabana.
Pontos que hoje consideramos muito distantes entre si, descobrirão que, na realidade, são muito próximos, quase vizinhos. Novas rotas de mobilidade urbana serão definidas, encurtando o tempo das “viagens” bairro a bairro. As pessoas chegarão aos seus locais de trabalho ou estudo em menor tempo e mais dispostas e poderão alongar o horário de sono, pois conseguirão voltar para casa mais prontamente.
As áreas de influência dos estabelecimentos comerciais e bancários tenderão a ampliar-se, criando novos polos dinâmicos de vendas e prestação de serviços dentro da cidade. Aglomerados urbanos, hoje vistos como feudos incomunicáveis, passarão a interagir e as possibilidades de fruição do espaço público também irão crescer: aquele parque que hoje, aparentemente, fica no fim do mundo, estará ao alcance de um número muito maior de pessoas.
O que hoje parece uma simples sucessão de intervenções no corpo da cidade é, na verdade, um processo que induz seus habitantes a viverem o sorocabanismo de forma mais aberta, dinâmica e confiante, aprofundando neles a autoestima e amor por esta terra cuja modernidade e beleza não cessam de crescer.
*Artigo publicado pelo jornal Diário Sorocaba em 6 de abril de 2014
*Artigo publicado pelo jornal Diário Sorocaba em 6 de abril de 2014