| Emerson Ferraz / Secom |
Tânia Franco
ttferreira@sorocaba.sp.gov.br
Quem vê uma criança, aluna da Rede Pública de Ensino, de uniforme, indo para a escola geralmente associa a imagem ao aprendizado formal; do letramento, do desenvolvimento intelecto-cultural.
Isso, de fato, constitui o estereótipo estudantil, mas, o que a maioria deixa de relacionar diz respeito a uma atenção sistêmica, em que a alimentação é parte fundamental. Para aprender e apreender, entre outros aspectos educacionais, uma criança precisa estar bem alimentada.
E, nas escolas municipais a alimentação abrange não só aspectos do sustento nutricional. Nos Centros de Educação Infantil-Creches, nas escolas de Ensino Fundamental e Médio, ou na Educação de Jovens e Adultos (EJA), as 836 merendeiras que produzem 200 mil refeições por dia, nutrem as emoções de gente que tem de 0 a 80 anos.
Além dessas, a Prefeitura de Sorocaba, por meio da Secretaria da Educação é responsável, também, pela alimentação de instituições conveniadas, como a Apae e o Pro-Ex e as creches, além das Etecs “Rubens de Faria” e “Fernando Prestes”.
Edneia Alves Dias, a Néia, há onze anos constrói e sustenta relações de afeto. Todos os dias, na Escola Municipal “Maria Ignez Figueiredo Deluno”, no Mineirão, ela começa o dia às 6h30 sabendo que, assim como o clichê de um comercial de tevê, o principal ingrediente do seu trabalho será o amor.
É amando, sentindo-se responsável pela saúde física e emocional de centenas de pequenos e grandes humanos que ela, em parceria com outras mulheres, aromatiza o ambiente com o perfume de bolos assando nos fornos ou do achocolatado sendo aquecido para o café da manhã. Até por volta das 16h, essa será sua rotina, entre formas, panelas, talheres e pratos que cozinharão, guardarão e servirão 911 refeições.
Neste ritmo, abençoado pela companhia de Ivone Aparecida dos Santos, Jandira Pontes Maciel, Elisângela Parigine e Joice Ferreira da Silva Simão, ela consegue um tempinho para cuidar com especial atenção de pessoas como Júlio César Malaquias Junior, de 10 anos. Em dieta alimentar para emagrecimento, ele conta com o apoio da “tia” para a troca de alimentos permitidos no seu cardápio ou, ainda, para dicas que auxiliem a queima calórica: “você está se movimentando em casa, fazendo aqueles movimentos como eu te disse?”, pergunta para, em seguida, receber resposta positiva. Néia, ainda conversa e distrai Junior sempre que as refeições na escola são uma tentação: “eu quero que ele fique firme no seu propósito”, solidariza-se e colhe o agradecimento, “a ajuda da tia é importante”, diz o menino.
Num ciclo de afagos, outras crianças fazem coro a Junior. “Você sabia que elas (as merendeiras), são supereducadas?”, pergunta Karina Rodrigues Alves, de 8 anos, durante o bate-papo precedendo o almoço: “você diz, tia, tá faltando prato. E ela responde, espera só um pouquinho querida, já foram buscar”, exemplifica. “Ela me chama de flor”, conta Ariadny Garcia Polastro, que na altura dos seus 8 anos entende quando Néia ou uma das outras mulheres indica que este ou aquele alimento é saudável e ajuda a crescer.
Quando perguntadas sobre o que as merendeiras significam para o cotidiano escolar, transparece um senso que ultrapassa o diâmetro do prato: “elas cuidam da gente”, dizem numa demonstração perceptível de que o cuidar não é o apenas cozinhar.
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Para todos e por cada um
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Outra situação que, de modo geral, é desconhecida da população diz respeito à individualização de cardápios. Junto às toneladas de produtos que a Prefeitura de Sorocaba compra, por meio da Secretaria da Educação, estão alimentos específicos para o atendimento de celíacos, diabéticos, renais crônicos, crianças com disfagia ou alergias. Estes, são parte do investimento de R$ 5 milhões em alimentação escolar, ao mês.
Cada uma, dentro de sua necessidade, é atendida com exclusividade. É claro que a escola precisa saber disso, por meio dos pais, e receber indicação de dieta restritiva de médicos. E que não paire engano, em todas as unidades onde estão esses estudantes, todos os dias as merendeiras checam o histórico do aluno e conferem seu cardápio. “Mesmo que haja mudança no quadro funcional ou a falta de alguém no dia, quem o substitui está apto para manter o atendimento e desenvolver o cardápio programado. É regra”, garante a nutricionista e supervisora da terceirizada responsável pela merenda escolar de Sorocaba, Elisa de Moraes Cyrineo Barreto.
Assim, na despensa, dividindo espaço com farináceos, arroz, feijão, achocolatados, macarrão, molhos, biscoitos e alimentos matinais, estão farinhas à base de amido, biscoitos de polvilho, barrinhas doces livres de glúten, lactose e açúcar e misturas dietéticas para bebidas.
Entrar num desses espaços, pode surpreender pela qualidade dos alimentos comprados e abrir a geladeira é ter certeza de que muitas pessoas não consomem, em casa, aquilo que saboreiam nas escolas.
Mas os cuidados com as crianças que apresentam alguma restrição não está só na seleção dos produtos, até mesmo os acessórios e utensílios de cozinha são separados; é o chamado “kit dieta” que é adequado ao atendimento de um número menor de alunos.
Fresquíssimo
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Banana, maçã, mamão, melão, melancia, pera, laranja, abacaxi. Brócolis, couve-flor, abobrinha, cenoura, vagem, mandioquinha, batata, berinjela, alface, tomate, pepino, alho, cebola.
A lista, que bem pode ser levada para nortear a compra na feira livre, integra o cotidiano das cozinhas das escolas públicas. No caso das unidades de tempo integral esses alimentos já vêm processados e higienizados, por causa do ritmo de produção que inviabiliza lavar e cortar. O cuidado fica na manipulação na hora de cozinhar. A higiene pessoal, do ambiente e dos utensílios é total.
Para se ter uma ideia dos cuidados, o caminhão que faz a entrega dos produtos, enquanto está descarregando, fica ligado para manter a refrigeração da câmara no mesmo nível. Com isso, além de frutas, verduras e legumes, também as carnes entram nas escolas dentro de altos padrões de qualidade.
“Aqui a gente não dá aquilo que nós não comeríamos. É preparado com cuidado e tem sabor, é delicioso”, conta Néia para quem, se há algo que não se pode dizer nada contra, é o fato de todos os funcionários das escolas poderem comer as mesmas refeições. “Não há distinção”, enfatiza.
Parte deste cuidado, determinado por lei sanitária, é a coleta de amostra de tudo o que é servido diariamente. Por 72 horas, saquinhos com porções de arroz, carne, feijão, leite, frutas, legumes, bolos e até pães ficam congelados adequadamente.
De volta aos pequenos comensais, e não fugindo a algumas características da infância, mesmo no século 21, na hora do almoço os pratos preferidos continuam sendo macarrão com molho e salsicha, arroz com frango e cachorro-quente. E os elogios nos dias em que aparecem na mesa de serviço são mais exaltados... os sorrisos também.
De acordo com a chefe de seção da Alimentação Escolar, da Sedu, Edna Tanaka, toda a refeição está adequada à necessidade dos estudantes. Aqueles que ficam meio período na escola, por meio das refeições, têm supridas 20% das necessidades diárias de proteínas, vitaminas e sais minerais. O pessoal de tempo integral consome, no mínimo, 70% de tudo aquilo que precisa para repor a energia despendida no dia a dia.
Porcentuais à parte, o que a garotada quer mesmo é poder sentar à mesa e comer uma comidinha que tem gosto de “feito pela mãe”; e isso acontece nas 260 escolas e entidades conveniadas da cidade, de manhã, de tarde e de noite.
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